sexta-feira, 15 de junho de 2007

BUNDA MOLE

Belinha acordou as 6:00, arrumou as crianças levou-as para o colégio, voltou para casa a tempo de dar um beijo em Artur, o marido, a fim de trocarem cheques, afazeres e reclamações.

Fez um supermercado rápido, brigou com a empregada que manchou seu vestido, saiu apressada como sempre. Levou uma multa por dirigir falando ao celular e uma advertência por ter estacionado em lugar proibido durante um minuto para sacar dinheiro no caixa eletrônico.

No caminho do trabalho entrou num congestionamento e começou a pensar quando teria tempo de pintar os cabelos e fazer as unhas.

Chegando no escritório quase foi atropelada por uma gata escultural que seria contratada para ocupar uma vaga que Belinha sempre almejou mas jamais conseguiu apesar de seu extenso currículo e anos de dedicação ao trabalho.

No meio da reunião ligaram do colégio avisando que sua filha mais nova estava com febre e dores na garganta. Tentou em vão localizar o marido para buscar a menina. Resolveu ela mesma ir até o colégio, depois de um encontro com um cliente chato e neurótico que teria que aturar pelos próximos meses.

Saiu da empresa esbaforida e encontrou seu carro com um pneu furado. Abandonou o carro e pegou um táxi para buscar as crianças.

Quando chegou em casa lembrou que tinha esquecido o relatório que precisava ler para o dia seguinte. Telefonou para o celular do marido com a esperança que ele pudesse pegar os papéis na empresa, mas o celular continuava fora de área.

Conseguiu um moto-boy para trazer os papéis. Tomou banho, deu janta para as crianças, fez os deveres, colocou-as para dormir.

Artur chegou irritado de uma reunião. Jantaram em silêncio. Na cama, ela leu metade do relatório e quando estava quase dormindo sentiu uma apalpadinha no traseiro e comentário: “Tá ficando com a bundinha mole, deixa de preguiça e começa a se cuidar.”

Belinha imaginou batendo com o abajur de metal na cabeça do marido, mas respirou fundo e dormiu.

Quando acordou, não levou as crianças na escola, não brigou com a empregada, não foi ao supermercado e ligou para o seu cliente dizendo o quanto ele era chato e neurótico. Foi para a academia malhou por duas horas, depois para o salão, fez as unhas, pintou os cabelos, fez drenagem linfática que promete reduzir medidas em apenas duas sessões. O marido ligava a todo instante e como vingança Belinha enviou a seguinte mensagem: Só volto quando a bunda estiver dura, assinado: a preguiçosa.

Retirado do livro “Este sexo é feminino” Patrícia Travassos.

Nenhum comentário: