domingo, 17 de junho de 2012

LEMBRANÇAS PERDIDAS DA MINHA MÃE - poesia sobre mal de Alzheimer

Na data de 13 de Maio deste ano, dia das mães, escrevi uma poesia para expressar o que sentia naquele momento...
No dia 13 de Junho, ou seja, um mês depois, minha mãe faleceu...
Cinco dias se passaram e eu ainda não consegui escrever uma linha a respeito da morte. 

Um amigo publicou no meu mural o poema de Pablo Neruda: Morre Lentamente, que é lindo, mas não serve como inspiração para escrever sobre a morte lenta que assisti durante doze anos.
 
"Após completar 60 anos começaram a surgir os primeiros sintomas da demência.
Aos poucos relaxou com sua própria higiene e de suas roupas e também com a limpeza da residência.
Guardava objetos pessoais e o lugar onde os havia colocado não se recordava...
_Alguém pegou..._ Reclamava!
Chaves da casa, documentos e dinheiro dentro de seu sutiã era encontrado com frequência.
O arroz queimava, o feijão salgava,
e o suco melado virava!
_O almoço está bom? Ela perguntava...
_Sim, mamãe, uma delícia! _ Eu com disfarçada alegria respondia!
Histórias de sua mocidade já contadas várias vezes, ela repetia.
O que havia comido no café da manhã, ela não se lembrava...
A nostalgia tomava conta da sua rotina. Sorria, dançava e mexia com as pessoas na rua.
Às vezes vestia várias roupas, uma por cima da outra. Às vezes ficava nua.
Com o tempo a agressividade apareceu....
Zangava, xingava, batia, discutia e fugia.
Depois veio a calmaria:
falava o dia inteiro coisas sem nexo, frases repetitivas.
Paulatinamente foi se esquecendo dos filhos.
Quando eu a chamava de mãe, não mais me respondia.
Um os últimos presentes que lhe dei, ela sequer desembrulhou...
Achou o pacote muito bonito e o guardou!
Lentamente foi se distanciando e de repente emudeceu.
Começou a usar fraldão.
Passou a precisar de ajuda para se alimentar porque sobre seus movimentos já não possuía mas coordenação.
Deixou de andar.
E entrou em cena a tão temida cama hospitalar.
E assim a doença de Alzheimer foi chegando e minha mãe foi sendo levada para um lugar desconhecido.
Hoje sei onde está seu corpo ainda vivo...
Mas a minha mãe, aquela mulher incrível...
que me deu bons exemplos e me ensinou muita coisa...
essa deve estar em algum lugar longe ou perto daqui mas ainda por enquanto, inacessível!


Autora: TÂNIA REGINA DE MATOS

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