quarta-feira, 13 de julho de 2016

A mulher que levou presos perigosos para sua casa



Em 1940, uma senhora caminhava pelas ruas da Avenida Ipiranga em total desamparo. O seu desespero, tão evidente, se dava por que ela não conseguira contato com o filho. A senhora era mãe de um apenado que estava na antiga Casa de Correção de Porto Alegre, e as restrições de acesso impediam que ela pudesse vê-lo. Sensibilizada com a situação, Maria Ribeiro, que havia estacionado seu carro na Avenida para amparar a idosa, consegue uma autorização judicial. Aos 24 anos de idade, a jovem pelotense nascida em 27 de novembro de 1912 foi a primeira mulher permitida a entrar em um presídio no Rio Grande do Sul. Lá, ela se depara pela primeira vez com a realidade carcerária do estado.
Horrorizada com a precariedade do local, que ficava submerso toda vez que havia cheia no rio Guaíba, deu início à jornada que percorreu até o fim da sua vida. Começou fazendo trabalhos sociais voltados à cultura com os apenados. Ao mesmo tempo em que ministra aulas de música e teatros para estes, começa a ter a curiosidade despertada por aquele universo tão particular, pouco explorado pelos demais. Assim, acrescenta na rua rotina um tempo para procurar, estudar e compreender outros possíveis modelos de cadeias. Anos depois, o assunto se tornou seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) quando ela se formou na Escola de Serviço Social, ainda na década de 40.
Antes de sequer ingressar no curso, trabalhava como Funcionária da Prefeitura. Assim, ela mesmo redigiu um ofício, assinado pelo prefeito, autorizando a retirada de 36 presos para ajudar nas obra da prefeitura que objetivavam a canalização do arroio Dilúvio. A Casa de Correção concordou, mas com a condição de que fossem levados “os piores”. Foi o que aconteceu. O juiz responsável pelo presídio na época disponibilizou dois caminhões para que Maria Ribeiro levasse os apenados para seus afazeres e os trouxesse de volta no final do dia. Acabou se arrependendo da decisão que tomara sem nem se dar conta da responsabilidade, e afirma que não conseguiu dormir pensando nos jornais do outro dia noticiando a fuga em massa dos presos. Mas, ao contrário, no horário combinado todos estavam de volta ao caminhão, cheios de esperança.
Foram esses homens que sugeriram a criação da casa que hoje é conhecida como Fundação Patronato Lima Drummond de Andrade. Ocupando uma área de 1,35 hectares do bairro Teresópolis, o casarão foi comprado por Cr$ 8 mil, dos quais 3 mil saíram do bolso da assistente social. A partir desse momento, surge um diferente modelo de família grande e singular como nenhuma outra. Movida, principalmente, pela confiança.
Confiança era, aliás, palavra-chave no Lima Drummond de Andrade. Enquanto outros estabelecimentos prisionais se preocupavam apenas com a punição dos presos, Maria Ribeiro acreditava em suas recuperações. “Não existem criaturas irrecuperáveis, mas métodos inadequados”, dizia. A vó, como carinhosamente era chamada pelos detentos, buscava sempre ressaltar o que cada um possuía de bom, por menor que fosse. A partir dessas características, iniciava o trabalho individual de melhora, normalmente obtendo êxito na recuperação e ressocialização destes.
Otávio Marcio Goulart da Silva é mais um dos tantos admiradores da senhora que, ao longo de sete décadas, impactou positivamente a vida de milhares de encarcerados. “Eu acho que em mais de mil anos não vai existir outra pessoa que faça o trabalho de conversa da dona Maria”, justifica ele, que aprendeu através dos diálogos com ela a ser uma pessoa mais calma e tranquila.
Quem compartilha do mesmo sentimento é o juiz da Vara de Execuções Criminais de Porto Alegre, Sidnei Brzuska. Apesar de só ter tido contato com Maria Ribeiro nos últimos anos de vida dela, não esconde o carinho e admiração que sente pela fundadora da casa de detenção com menor índice de fuga até hoje.
 “Aqueles que a sociedade dizia que eram os piores, eram os que ela mais procurava ajudar”. A frase é do empresário Luiz Carlos Butier. Ele, que foi o primeiro preso no Brasil a cumprir pena por calúnia, injúria e difamação, ressalva que os ensinamentos dela o reposicionaram na vida. Quando ele chegou no Patronato, em 2006, a casa dela estava sempre fechada. Curioso, sempre perguntava aos outros quem morava ali. “É a vó”, lhe respondiam, acrescentando que ela foi a fundadora do Lima Drummond de Andrade. Na época, era verão e Maria Tavares estava na praia. “Quando ela voltou, todos os dias eu ia lá ver se tinha algum sinal de luz ou se a casa estava aberta”, afirma Butier. Até que um dia, finalmente, estava, e ele fez questão de se apresentar. Depois desse episódio, ele dedicava diariamente um tempo para alcançar o café da manhã para ela, e outro, quando ele chegava do trabalho, para conversar. A palavra de alento e carinho era característica marcante da senhora de olhos pequenos e ágeis, que não diferenciava ninguém. “Para elas, eram todos iguais, eram todos anjos”. Em liberdade, Butier criou a ONG Fui Preso, onde ajuda na ressocialização de outras pessoas que tiveram suas vidas impactadas por algum deslize. Sempre que Luiz Carlos fala sobre a organização, um sorriso brota de seu rosto, acompanhado da frase “a dona Maria é a minha musa inspiradora”.

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