sábado, 18 de fevereiro de 2017

Causa e Efeito

Conviver com um(a) portador(a) de Alzheimer é um exercício diário de paciência. Destruir a causa dessa demência é a vontade de todo(a) cuidador(a). Ninguém quer que seu familiar morra por ter desenvolvido a doença. Mesmo sabendo que não há cura, todos querem seus parentes vivos e sem a presença do “alemão”. Para proporcionar uma melhor qualidade de vida ao doente busca-se tratamento, remédios e tudo o que for possível, inclusive, liminares junto ao Poder Judiciário através da Defensoria Pública.

Assim como os parentes de quem tem uma enfermidade querem que ele(a) se livre dela, a sociedade quer se livrar da violência e de suas causas. Numa democracia não é aceitável desejar a morte de alguém violento, espera-se que essa pessoa seja punida e se recupere.  

O uso abusivo de drogas tornou-se um grande problema de saúde pública, entretanto, há muitos dependentes na prisão porque vendiam drogas para sustentar o seu vício. Mantê-los atrás das grades não interrompe o ciclo e ainda alimenta as organizações criminosas.

Carl Hart, neurocientista pesquisou sobre os efeitos do crack no Hospital da Universidade Columbia, em Nova York e concluiu que para as pessoas que estão na rua, sem perspectiva ou o que ele chama de “reforço alternativo”, ficar sem crack, obriga-as a conviver de cara limpa com a sujeira, a desesperança e a violência.

Por isso que, embora o crack seja usado por gente de todas as classes e etnias, os brancos e os de classe média geralmente não se viciam, porque têm algo a mais a esperar da vida. Quase sempre quem se dá mal são os mais pobres, os que vêm de famílias desestruturadas e os membros de minorias raciais. Segundo uma pesquisa da Fiocruz, 80% da população das chamadas cracolândias tem pele escura.

Remediar virou rotina no Brasil. Construir presídios, realizar mutirões para abrir novas vagas, criminalizar conflitos e enrijecer a lei penal são iniciativas já aplicadas, ultrapassadas e que não trouxeram resultados diferentes.

É importante observar a causa dos problemas para se antecipar a eles. Nos Estados Unidos sete estados elevaram a idade penal para 18 anos. Os defensores dessa medida legislativa esperam que pelo menos cinco estados elevarão a idade penal para 18 anos em 2017 e outros poderão elevá-la para 21 anos. Adotaram essa postura após anos de estudos.

Nenhuma nação desenvolvida conseguiu diminuir a violência com aumento de estabelecimentos prisionais, ao contrário, aquelas que conseguiram controlar seu crescimento investiram pesadamente em educação.

Cingapura se tornou o primeiro país do mundo a exigir que todos os seus alunos passem por um programa de ASE (Aprendizagem Social e Emocional) o que resultará em aumento de renda de toda a nação, ganhos extras à saúde e menores índices de criminalidade segundo economistas envolvidos no estudo.

A Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso completa no próximo dia 24, dezoito de existência e por ser considerada uma Instituição Nacional de Direitos Humanos, deve dar publicidade a esses direitos e combater todas as formas de discriminação, principalmente contra os pobres, aumentando a conscientização pública, especialmente através da educação e de órgãos da imprensa.


Tânia Regina de Matos é Defensora Pública em Várzea Grande, integrante do Conselho Municipal do Negro, é uma das coordenadoras da Rede de Educação Integral do Município

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